Querido diário: dia 1

06-12-2025

Nasci numa aldeia tão pequena que, vista de longe, parecia um suspiro pousado entre campos verdes. Havia um brilho especial quando o sol nascia — daqueles que ilumina as ervas, o rio e até as conversas curtas das pessoas que se conheciam como se fossem da mesma família.
Dizem que era linda. Eu acredito.

Eu era pequena, tão pequena que quase não existia memória, apenas relatos que ouvi mais tarde da boca da minha mãe e do meu irmão. Contam-me que, com uns três anos, já andava pelo campo com eles, a apanhar pêras podres do chão para dar aos porcos. Para mim, era só brincadeira. Para eles, trabalho. E eu, mesmo sem perceber, já trabalhava também.

O meu irmão — sete anos mais velho — lembra-se melhor do que eu. É ele quem me conta que foi nessa altura que a minha avó começou a dar-me pequenos goles de vinho. Não tenho memória disso. E talvez seja melhor assim.

Daquela idade guardo apenas memórias soltas, quase fotográficas.
As pernas do meu avô.
E alguém a observar-me enquanto eu andava no triciclo que ele próprio construía com ferro velho.
Ele morreu semanas antes de eu fazer três anos.

No dia do funeral, fiquei em casa com a minha avó materna. Lembro-me de perguntar por que tocavam os sinos.
"É uma festa na vila", disse ela.

Quando mais tarde soube a verdade, nunca consegui perdoar-lhe por isso.

Aos seis anos as lembranças já são mais nítidas — e também mais duras. Recordo-me de beber vinho, levado pela mão da minha avó, enquanto, no café da vila, os adultos conversavam e eu era apenas… uma criança. Uma criança que só obedecia.

Nessa altura eu já trabalhava no campo para a família. Uma caixa de tomates colhida, um tostão. Uma caixa de uvas na vindima, outro tostão. Mas o dinheiro ia para o meu pai. Ele dizia que era para pagar os meus estudos. E assim sempre foi.

Nas pausas do trabalho fugia para um pêgo antigo, já sem uso, e falava com o meu avô.
Era lá que eu chorava sem fazer barulho.
Era lá que eu me sentia menos sozinha.

Eu quase não tinha amigos — pelo menos, não humanos. Os que tinha eram os animais que o meu pai me colocou ao cuidado. Mas eu não via isso como tarefa.
Eles eram companhia.
Eles eram amor.
Eles eram tudo o que eu não encontrava em casa.

Os meus pais mal davam pela minha presença. O meu irmão dizia que me odiava. Eu só existia quando fazia algo errado… ou quando precisavam de mim.

E era assim que eu crescia: eles de um lado… e eu do outro.
Sozinha.
Abandonada.
Exceto pela minha avó paterna — a única pessoa que, sem saber, segurava os pedaços do meu mundo.

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